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quarta-feira, agosto 27, 2008

Os tons das lágrimas

Os tons das lágrimas

Nos idos tempos de cada um de nós, plantamos lembranças que determinam grande parte dos rumos dos nossos destinos. Essas lembranças referem-se a conceitos que absorvemos com a convicção de que tudo o que se entender fora deles não tem validade; ou não rendem coisas para nosso proveito. Com isso, passamos a crer que somos frutos de verdades (nem sempre verdadeiras) sobre as quais fincamos nossos pontos de apoio (ou princípios).
A partir dessas "verdades", criamos outras no decorrer da vida. Quase sempre, as novas verdades dizem respeito às nossas alegrias e frustrações. Por exemplo: constatei que existe uma grande alegria na realização do trabalho. Dar-lhe andamento é algo que nos ocupa, muitas vezes, todo o tempo e até mesmo nossos sonhos oníricos ficam marcados, mormente quando nos dedicamos por demais na consecução desses propósitos. E então, vêm os resultados: e isso é o que nos dá alegria. É o momento em que o trabalho deixa de ser obrigação, torna-se o lado lúdico da vida.
O mesmo se dá com quem vive (e sobrevive) do que é lúdico, ou seja, os que trabalham justamente para produzir lazer e entretenimento, como atletas e artistas. Para os menos informados, pode parecer injusto: uns trabalham quebrando pedras; outros, fazendo ou executando música, poesia, quadros pictóricos, cestas e gols. O espectador pode pensar que fazer poesia ou marcar pontos de bloqueio e saque são tarefas fáceis; que tentem, pois.
Uma coisa, apenas, é certa: mesmo aquilo que se mostra muito prazeroso exige muito esforço, seja físico ou mental (muitas vezes, físico e mental). Esportes exigem muito, muito mesmo de treinos, de preparação; arte exige pesquisa, estudos e, quase sempre, muito de criação. Mas somos humanos e, para cada um de nós, galinha gorda é a do vizinho, não é? Parece fácil receber uma bola no peito na intermediária, amortecê-la e ao mesmo tempo girar 180° para, ainda no ar, emendar um sem-pulo, com o peito do pé, consagrando um legítimo gol de placa. Sim, é fácil para quem é craque. Ou produzir um verso que atravesse décadas e séculos e que poderia ser criado na mente de qualquer um de nós, mas porque mesmo não o criamos?
Pelo sim, pelo não, sei que todos nós sorrimos e choramos com os atletas brasucas em Pequim (alguns teimam em dizer Beijing). Com eles, nós caímos e choramos, perdemos uma luta e choramos, perdemos gols e choramos, quebramos récordes (com acento, por favor) e choramos, ganhamos bronze, ouro e prata e choramos. Somos uma nação chorona, sim, e choramos por tudo. E viva a lágrima! Principalmente se verde-amarela!
Entre sorrisos e gargalhadas, com a têmpera das inevitáveis lágrimas, é que me regozijo com Maurren Maggi, César Cielo, Eduardo Santos, Diego Hipólito e as meninas ginastas, as gurias do vôlei, as craques do futebol feminino (ainda que com a prata, as melhores do mundo, sem dúvida nenhuma; isso vale também para os garotos do vôlei de quadra), as duplas masculinas e femininas do vôlei de praia, inclusive os brasileiros da Geórgia. Com medalhas ou sem elas, esses moços nos trouxeram alegrias mil, investiram-se do propalado espírito olímpico. Lamento que não se possa dizer o mesmo dos que foram lá jurando trazer o ouro que nos falta. Aquela seleção não merece crédito. Não por ter perdido para a Argentina: todos nós, brasileiros e argentinos, sabemos que o mundo nos olha como capazes de oferecer o melhor dos clássicos do futebol em todo o mundo. Mas o que os meninos de Dunga fizeram foi vergonha pura. Não jogaram bola, mas deram pancada; não fizeram gols, perderam-se em campo como se estivessem numa sala de cristais; e se não bastasse isso... Bem, fico com a frase de Don Diego: "Nunca vi um Brasil tão covarde". Maradona tem muita razão e autoridade para dizer isso. Tanto quanto teve classe e autoridade para beijar a mão de Ronaldinho Gaúcho (este, parece-me, foi dos poucos a continuar merecendo respeito).
É, pois é, então... Daqui a quatro anos, em Londres (espero que a TV Record não diga London), vou torcer de novo pelos nossos times de vôlei, de basquete, de futebol feminino, de atletismo em suas várias modalidades, natação, tênis de mesa, tênis, artes marciais... Mas não perderei tempo ante a telinha por conta do futebol dos astros sem brilho, não. Usarei essas horas em algo mais proveitoso, como ler bons poemas e contos e ouvir boa música. Ou escrever. De fato, foi muito doloroso aprender a ler e a formar frases; mas juntar tudo isso me faz tão feliz quanto, quando menino, festejava um gol com bola de meia no meio da rua.

3 comentários:

Elliana Alves Rio de Sonhos disse...

Muito bom teu blog
vim deixar um abraço
bjssssssss e bom dia.

So quero um espaço no mundo para aprender as lições da vida. (Maria)

Madalena Barranco disse...

Olá Luiz, aproveitei este sábado gelado em São Paulo para colocar em dia a leitura dos blogs de meus queridos amigos, onde textos assim como o seu ajudam a aquecer esta sua leitora e admiradora, que ainda crê na importância da participação em detrimento da luta.

Beijos.

Maria Elisa Castro Carvalho disse...

Quando você escreve sobre "o trabalho tornar-se lúdico, música, poesia, escrever, pontos de bloqueios", é M A R A V I L H O S O! Excelente mesmo.
Em relação a futebol, concordo com você porque há muito tempo penso como você escreveu.O futebol em nosso país com tanto problema não existe, e a violência?.