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quarta-feira, agosto 27, 2008

Caos na Serrinha

Caos na Serrinha

Menos de duas décadas após a derrota total ante as tropas norte-americanas, o Japão emergia do caos como um ícone de superação de um povo, despontando como a promissora potência econômica em que se transformou. Na década de 1970, alguns países como a Espanha e os que hoje chamamos de “tigres asiáticos” decidiram investir maciçamente em educação e adquiriram estrutura e outras condições para florescer suas economias e seu desenvolvimento social.
Há mais de vinte anos, livramo-nos da ditadura; isso plantou em nós um desejo ardente de apego à dignidade pessoal, mas falta-nos a base de educação para que esse êmulo fizesse de nós, efetivamente, um povo capaz de dizer, pedir, aguardar, exigir e cobrar. Sabemos que dispomos de alguns avanços no processo da cidadania, mas ainda aceitamos imposições truculentas de uns poucos, temporariamente investidos de poder. E, estranhamente, essa truculência não vem dos que se investem de poder pelo voto, mas por seus adjacentes autocráticos.
Pois bem, esses ajudantes que se sentem autoridades precisam compreender que a autoridade é constituída de conhecimento e representatividade, não apenas de um cargo em que é empoleirado. Falo das obras do viaduto no cruzamento das avenidas 85 e T-63; para poupar o sossego de uma minoria abastada, o manda-chuva da SMT transferiu todo o volume de tráfego da T-63 para o trecho entre a obra e a Serrinha.
Na última segunda-feira, sem qualquer aviso prévio, sem sinalizar as vias afetadas e sem qualquer outro nível de satisfação ao povo morador e transeunte, o Dermu/Compav abriu uma extensa vala para implantar tubos no subsolo da Avenida 85, afetando o tráfego na T-64 e na T-65 (esta, sem nenhuma placa, sem nenhum agente orientando, foi interrompida no cruzamento com a 85).
Como era esperando, na quarta-feira, um carro caiu na vala. O condutor e seu pai nada sofreram, mas o carro deve ter se perdido totalmente. Como sempre, o fato atraiu curiosos que, estupefatos, viram um funcionário chegar, rápida e cinicamente, com uma placa, tentando mascarar a realidade. Pois bem: nós, que moramos na zona afetada; nós, condutores de veículos e trabalhadores que transitamos pela zona afetada; nós, povo de Goiânia, exigimos uma atitude. Se os dirigentes do Dermu/Compav e da SMT não se dignam a nos respeitar, que o prefeito Iris Rezende assim o determine: queremos saber 1) quem não sinalizou devidamente; 2) quem mandou e quem foi lá colocar a placa depois do acidente.
Queremos saber também as razões que levam as “autoridades” setoriais do município a adotar medidas de proteção a moradores de uns poucos quarteirões que, como nós outros, deviam também ser prejudicados no período da duração da obra.
Já escrevi neste espaço sobre a atitude dos vizinhos da praça da T-25, que só faltam instigar seus cães contra os que eles próprios consideram invasores, como se as praças, em Goiânia, escapassem dos versos de Castro Alves: “A praça! A praça é do povo / como o céu é do condor”.
Não sou versado em práticas burocráticas, mas penso que o Ministério Público está a dever ao povo de Goiânia uma atitude: cobrar dessas autoridades municipais esclarecimentos e, principalmente, atitude de respeito a quem paga por tais obras. Ou o povo terá de voltar às ruas, em manifestações sempre reprimidas com rigor pela polícia, sempre muito eficaz quando se trata de agredir quem lhes paga o salário. Aliás, e é bom que eu diga, os sindicalistas locais precisam rever os trajetos de suas passeatas. Conduzir trabalhadores com suas reivindicações à Praça Cívica não resulta em nada, como se sabe. Mas se os levarem à Praça da T-25, aí, sim! Aposto que a pressão dos poderosos moradores sensibilizaria as autoridades.
Enquanto isso, e em plena campanha pela reeleição, Iris Rezende situa-se, realmente, no seio do povo da cidade. Mas, infelizmente para ele, na condição de mais uma vítima de sua mal-montada SMT, ante a qual ficamos todos sem “sanches”, quero dizer, chances de receber do poder público o serviço pelo qual pagamos tão caro.

4 comentários:

Mara Narciso disse...

Mesmo sendo um problema local, é bom que sirva de referência e seja ampliado para todos os níveis. Quando o benefício é para poucos, e o incômodo avança sobre muitos, é preciso protestar.

Maria Helena Chein disse...

Luiz, obrigada pelo envio da crônica. Palavras certas sobre o caos instalado nas vias que circundam a Praça do Chafariz.
Forte abraço. M. H.

Fátima Paraguassu disse...

Sabemos o que nos incomoda, o que não é bom para o coletivo. Infelizmente não somos capazes de protestar de fato.

Madalena Barranco disse...

Querido Luiz,

O "caos" atinge a "Serrinha" e muitos lugares brasileiros. Nem sei se meu comentário é pertinente à sua crônica consciente, porém, eu me pergunto o seguinte: quando as pessoas agirão de acordo com os princípios de harmonia e respeito ao próximo? Por que o ser humano possui essa cruel necessidade de aparentar o que não é? É isso, amigo. Beijos.