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segunda-feira, agosto 18, 2008

Artigo no DM de 18/08/2008...

Luiz de Aquino:
O poeta

José Luiz Bittencourt (*)

Referindo-se ao poeta Dante Milano, que fez parte do movimento modernista, com seus amigos, Manuel Bandeira, Annibal Machado, Vilas-Lobos, Portinari e Celso Antônio, escreveu o mestre Sérgio Buarque de Holanda que o carioca nascido de uma família de músicos está longe de ser, como se diria, um poeta de idéias, posto que suas “idéias” não sobrevivem impunemente a qualquer espécie de paráfrase em prosa. Em outras palavras, seu pensamento é de fato sua forma. Pura verdade!

De certo modo, Luiz de Aquino, pirenopolino de Caldas Novas, estudante do Colégio Pedro II, do Rio de Janeiro, estabelecimento de ensino que também tive a honra de freqüentar, é dono da arte poética que descreve não apenas o sentido das palavras, mas o pensamento que nele se quer representar. Tem a visão do mundo, do realismo, da emoção relembrada na tranqüilidade, o verdadeiro ritmo semântico, “guiado não apenas pelo ouvido, mas também, e principalmente, pelo sentido”. É o que, no caso, não parece excessivo falar-se, como já se tem falado, de um Rilke e no de um Hopkins. Toda a sua obra revela um poeta dotado de alta sensibilidade lírica e tem a singularidade de uma poesia de tonalidade própria do universo de sua imaginação.

Poeta, certamente. Entretanto, Luiz de Aquino é ainda contista de primeiro plano. Apareceu em 1978 com o livro O cerco e outros casos. E cronista também, faceta demonstrada a partir da publicação de um volume resumindo a história de nossa gente, uma pesquisa documental memorialística. Nesses dois gêneros, consagrou-se como um dos nossos melhores artífices da palavra, militante na atividade cultural em Goiás e que lhe tem valido prêmios de conceituadas instituições. Aliás, é de se dizer que ele integra o grupo de Lêda Selma, Helvécio Goulart e outros tantos de sua geração: Lêda jorra lirismo em catadupas de cânticos, Helvécio é o franciscano que se inspira na humildade do Santo de Assis e se torna por vezes um místico muito próximo de Juan de la Cruz e Theresa DAvila.

O certo é que Luiz de Aquino encarna a sua poesia, feita de tempestade e bonança, no infindável caminho de quem tenta penetrar na solidão do mundo interior. Basta ler os poemas de Cantos de Amar, que veio a lume em 1986, aqueles que estão em Meninas dos Olhos, nos acolhidos em Razões da Semente e nos recentes Sarau e As uvas, teus mamilos tenros. Ele faz a sua confissão de amor à poesia, como se estivesse ao lado de Dante Milano: “Sou um poeta. Percebo o que é ser poeta ao ver na noite quieta a estrela inquieta: significação grande, mas secreta.”

Contista, memorialista, cronista e, sobretudo, um poeta para os que o lêem, revela os seus sentimentos amorosos e violentos, suas metamorfoses e suas canções, os sonhos, as ilusões, as emoções, o orgulho de não ser humilhado porque não persegue a glória. Esta chegou cedo e muito cedo, deu-lhe o lugar merecido, sai na frente de todos e continua a fazer sua poesia como um verdadeiro peregrino do céu na terra dos homens. Lembra o aviador Saint-Exupery, ao desenhar a figura do “pequeno príncipe”, poesia de incomum pureza e invulgar compreensão de tudo desde o princípio do mundo.

Quando estudou no Colégio Pedro II, aprendeu Luiz de Aquino as lições magistrais de eminentes mestres, mas não se tornou latinista nem greco-romano. Viu-se inspirado para fazer da vida um valor constante no suave caminho da poesia, na exaltação do belo e da grandeza de sua existência. Ele conheceu mestres como Libânio Guedes, Joaquim Ribeiro, Raja Gabaglia, Antenor Nascentes, José Oiticica e Clóvis Monteiro, gente de excepcional cultura que está hoje na galeria dos ilustres letrados deste País. O poeta da coletânea Meus poemas do Século XX não desmerece a tradição goiana de Cora Coralina, Leodegária de Jesus e nem a de vates como Léo Lynce, Felix de Bulhões, Vasco dos Reis e Xavier Junior e quantos estão na memória goiana.

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José Luiz Bittencourt
é membro da Academia Goiana de Letras, foi vice-governador de Goiás e escreve às segundas-feiras neste espaço. bitt85@gmail.com

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15 comentários:

Fátima Paraguassu disse...

Parabéns, Luiz!!
Li o artigo sobre você. Fiquei encantada. Sabemos do que você é capaz, mas faltam as palavras certas para descrever com tamanha precisão a sua habilidade poética. Poetinha tinhoso? rs
Um beijo

Fátima

José Carlos Barbosa disse...

Luiz, o artigo do acadêmico José Luiz Bittencourt retrata apenas uma coisa, que já conheço desde 1965: a realidade sobre o escritor e meu amigo LUIZ DE AQUINO ALVES NETO.
Luiz, ler "você" não é bom... é ótimo, como a matéria sobre Dorival.
Abraços do amigo jcarlos

Edmar Oliveira disse...

Parabéns, Aquino. Se pudesse, assinaria o texto junto com José Luiz Bittencourt.
Abraço.
Edmar Mota

Olavo J. Andrade disse...

Caro Luiz de Aquino:

Bom dia!

Excelente esse artigo de José Luiz Bittencourt! Acrescentar-lhe algo seria desmerecê-lo... Corresponde, plenamente, ao que Vc, indubitavelmente, é e merece! Parabéns, embora modestos!

Parabéns, também, pelas suas crônicas sobre o gr Dorival C e sobre o Professor Geraldo!

Obrigado por brindar-nos com seus sempre preciosos escritos!

Boa sorte!

Gr abr Olavo.

Mara Narciso disse...

Homenagem rasgada e merecida--adoro "As Uvas, seus mamilos tenros": poemas para ler de joelhos, como já disse uma vez--,com um valor ainda maior, pois faz do mérito a origem dos elogios.

E com essa turma em sua companhia, o que mais poderá querer? Então você é um poeta "tinhoso"(?),Luiz de Aquino?

José Luiz Bittencourt disse...

Luiz, meu prezado - Também eu tenho recebido emails e telefonemas de cumprimentos. Não imaginei que vc. era (e é) tão querido assim. Pessoas que não conheço proclamam admiração e respeito pelo poeta, cronista, memorialista e contista Luiz de Aquino, pirenopolino de Caldas Novas e goiano brasileiro universal. Estou feliz porque alcancei o meu objetivo! Um abração do velho amigo e querido confrade Bittencourt

Irani disse...

Boa tarde, Luiz

Parabéns, vc merece tudo isso e muito mais.
Um beijo!

Irani

Irani Félix disse...

Parabéns pelo artigo do José Luiz Bittencourt... vc faz jus a todas aquelas palavras!

Marluzis disse...

Que grande homenagem e emoção, querido Luiz de Aquino, principalmente vindo de um grande ex-aluno do Colégio Pedro II para outro grande ex-aluno do mesmo colégio.
Ele o colocou de forma ímpar no seu devido lugar: ao lado de grandes mestres. Mais do que justo.
Saudações pretrossecundenses.

Sueli Catão disse...

Luiz, Luizes, luz, luzes...

Sueli Catão

sinva disse...

Este descreve bem o poeta que conheço, Belo, parabens
sinvaline

Fernando Quintella disse...

Acabo de receber o competente artigo do Bitencourt, Luiz.

Competente porque retrata com fidelidade sua trajetória nas letras de nosso país.

Seleciona os melhores exemplos, qualifica o texto com as comparações essenciais com os grandes, enfim, show de bola, para lembrar minhas origens no jornalismo esportivo.

Você merece cada letra do artigo, amigo. E sabe disso.

Modestamente, tomo a liberdade de assinar bem abaixo do Bitencourt, mas com o mesmo entusiasmo.

Forte abraço

Fernando

IVAN PETROVITCH disse...

parabéns pelo blog!!! http://ivanpetrovitch.blogspot.com/

Madalena Barranco disse...

Querido Luiz,

José Luiz Bittencourt poetou você... Ou será melhor dizer que ele encarnou em palavras através da prosa o mesmo que você faz com a poesia, quando encarna-a em versos e fornece-lhe um corpo com alma táctil.

Beijo, com carinho, e parabéns pela entrevista e merecidas palavras de José Bittencourt.
Madalena

Malu Monte disse...

Luiz,

Estou encantada com a criatividade do seu blog!
Não o conhecia, no entanto, esta semana tive esse prazer por intermédio de uma grande amiga que me enviou um email com fotos de Copacabana e nele constava este endereço.
Eu, curiosa que sou, resolvi entrar pra conhecê-lo e
bendita a hora em que me atrevi!

Um abração!
Malu Monte