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domingo, agosto 31, 2008

Dorival e Stella Caymmi

Assim que soube, pela tevê, que Dorival Caymmi se mudara de endereço e de matéria, escrevi (e publiquei no meu blog: http://penapoesiaporluizdeaquino.blogspot.com/) uma pequenina crônica, com o título “De amor ao mar e a Caymmi” e que ficou assim:
“Dia que segue pacato, preguiçoso... Que bobagem! A preguiça é minha, porque o dia é sábado, as horas têm métrica rígida e o sol, seu maestro, é intransigente.
Melhor, pois, recomeçar.
Sábado, agosto, 16, e o ano é 2008. Ora, se o mês é oito, e o dia me dá o duplo, o ano contém dois e oito... Que os numerólogos decifrem! Não há de ser este um dia aziago, pois! Mas foi neste sábado, quando o dia nascia em Copacabana, que Dorival Caymmi saudou os orixás que fizeram corte para recebê-lo do lado de lá da alvorada.
Era infante, eu, quando ouvi pela primeira vez suas canções, e hoje sou um homem recém chegado à faixa dos velhos homens. Deliciei-me a infância, a adolescência, a juventude e os anos ditos da razão com suas canções de amor e Bahia, de mar e alegria.
A preguiça minha neste sábado prendeu-me a curtir as horas. E curti-as vendo os jogos de Pequim, em regozijo com os resultados brasileiros. É, sou desses que se empolgam com as coisas brasis, sejam elas do espírito ou da carne. É que o que faz bem à carne alegra o espírito, e penso também que o caminho de volta é verdadeiro. Por isso, já morria a tarde quando vi a notícia. Preferi me aquietar em mim, agradecendo a Deus por nos ter dado um artista de tanto poder! Sim... Deus é brasileiro e deve ter nascido na Bahia. Ou beijou as terras de São Salvador para acolher gente como Dorival.
Escalei meu domingo, então: vou ouvir tudo o que tenho em casa, em CD ou em vinil, da lavra de Caymmi. É que músicas dele têm poesia-de-lei e melodia dos deuses. Ou dos santos daquela boa Bahia. E se vier na voz encorpada dele próprio, melhor ainda!
Assim, será esse o meu domingo, dia em que Dorival Caymmi, que já se mudou para o céu dos bons, muda também de endereço na terra. Ele deixa o Posto Seis de Copacabana e vai morar em Botafogo, no imenso quadrante de São João Batista.
Do lado de lá do mundo, onde o sol nasce primeiro, os moços atletas continuam seus jogos. Há brasileiros a disputar medalhas, e muito especialmente os que correm no mar. Certamente, Caymmi torce por eles.
Eles, pois, que reverenciem também o nosso poeta das canções praieiras. Afinal, ele fez o mar ficar mais bonito”.
Por ser sábado, a crônica de domingo (17 de agosto), o DMRevista já estaria impresso àquela hora. Por isso a publicação ficou restrita ao blog em que divulgo escritos para amigos leitores eletrônicos. Mas eis que vem a notícia: faleceu a mulher de Dorival Caymmi, Adelaide Tostes... Melhor dizendo, Stella Maris Caymmi. Sim: a mocinha cantora que o baiano genial conheceu num programa de calouros da Rádio Nacional, no final da década de 1930, tinha esse nome artístico: Stella Maris (que, em latim, que dizer “Estrela do Mar”). Só podia ser! Não dá para imaginar Dorival Caymmi, o autor das incomparáveis canções praieiras, casado com alguém cujo nome não o ligasse ao mar. Afinal, “Marina” é uma de suas músicas mais cantadas e decantadas.
Pois bem, amigos meus! Dona Stella estava hospitalizada desde abril. E os dois se casaram em 1940! A morte do baiano mais carioca do Brasil (ou do carioca mais baiano; aqui, a ordem não altera o resultado) marcou-se pelo regozijo: Deus nos deu um homem daquela envergadura e permitiu que dele desfrutássemos por mais de noventa anos. O lado triste, porém, ficava dentro da família, mais precisamente na solidão que condenaria sua companheira à tristeza. Pensando assim, visualizei o velho cantor não com seus 94 anos completos, mas moço quarentão, tal como o vi, pela primeira vez, em programa de tevê de 1956: cabelos brancos e bigode preto, a declamar musicalmente, com voz densa e doce: “O mar / quando quebra na praia / é bonito, é bonito...”. Na minha imagem, lá vinha ele, de calça clara e camiseta de listras horizontais, violão na mão; invadia o quarto onde Dona Stella era assistida, tomava-a pela mão e dizia, do seu jeito: “Tá na hora, minha velha moça! Fizemos o tínhamos de fazer... Vem!”. E, de mãos dadas, estiraram uma caminhada sem pressa pela areia de Copacabana, estranhamente vazia neste teórico inverno tropical.

8 comentários:

Estrela da Manhã disse...

Querido amigo, Luiz!

Tomo a "sua" licença poética e mudo o nome do seu espaço:
"Pena, Poesia & Sintonia!"

Não conseguimos ver esta passagem de outra forma, senão por este prisma, que conversamos, e que você letrou, mais uma vez, primorosamente.

Decerto que nosso bom baiano-carioca, não deixaria seu alicerce e fortaleza - sua mineira-baiana-carioca (rs) - para trás...

E para esta Viagem, o que não lhes falta é trilha sononora!
Cantem! Danilo, Nana, Dori... Brasil: "Andança"!

Obrigada, por mais essa carinhosa homenagem.

Mais que fãs...Cúmplices de um grande amor!

Abraços fraternos,

Soraya Vieira e Elaine Lobo

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Saramar disse...

Ai, Luiz, que emoção suas palavras provocam!
Dorival, o cantor do mar, o mais belo amante de Janaína, foi-se e levou com ele o seu amor, que nem na morte, poderiam ficar separados.
O que ele deixou para deleite eterno do brasis é maior que toda medalha, e ests são enormes.
Lindíssima sua crônica, com um final tão dolorosamente belo que me fez chorar.

beijos

Sueli Catão disse...

Stella era mineira de Pequeri...

Maria Elisa Castro Carvalho disse...

Dorival e Estela sem comentários.
Linda, linda, linda!
Você disse tudo.
Parabéns!

Leda(ê) Selma disse...

Para Caymmi, só mesmo muita poesia, assim como sua crônica, Luiz. E maior poesia há que a morte do coração do próprio coração?! Está explicada a partida repentina da "estrela do mar" do poeta baiano. Estrelizados, eles, agora, namorarão no azul profundo dos mares celestiais. E disseminarão poesia para o deleite da comunidade eterna. Lêda Selma

Anônimo disse...

Ele fez pra ela:

Acontece que eu sou baiano
Acontece que ela não é.

Sueli Catao

José Luiz Bittencourt disse...

Prezado Luiz de Aquino - Bom dia! Sua crônica sobre Dorival Caymi foi um hino de louvor à memória do brasileiro baiano que se inspirou no mar para cantar as maravilhas da vida. A homenagem traduziu o sentimento de nós todos à poesia de quem certamente soube dizer aos nossos concidadãos e ao mundo musical "o que é que a baiana tem"! Receba o afetuoso abraço do confrade sempre amigo Bittencourt

maria de lourdes disse...

Luiz, emocionante o seu sentir.Eu sempre falo que sentir, sentimos,difícel é expressar,escrever, comover,colocar no papel o sentimento sentido.É esse o seu mérito.Tenho certeza que deixou todas as mullheres querendo ser a estrela de um Caymi.