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quinta-feira, janeiro 29, 2009

Às aulas, de novo

Luiz de Aquino

 

Fim de janeiro, e a gente mal se refez da ressaca das festas natalinas e de Ano-Novo. Esta passagem de ano teve cores diferenciadas, com as preocupações centradas na crise mundial que, dizem, supera a de 1929. Será? Sim, é possível... Afinal, vivemos a tal da economia globalizada, isto é, o capital deixa de ter pátria e corre o mundo, aplica-se onde obtém melhor rendimento, instala indústrias onde o custo do trabalhador beira a linha do trabalho escravo e vende produtos onde houver alguém. Se o propósito é vender sorvete, há que se convencer esquimós. E, também, há que se mostrar aos beduínos que eles precisam de aquecedores.

Há produtos que se vendem em qualquer lugar: calçados, roupas, bebidas, armas de fogo, drogas lícitas, drogas ilícitas, computadores, automóveis e, principalmente, ideologias. Impor a ideologia do Tio-Sam, ainda que falido, não é feio nem condenável. Condenável é vender ideologias “exóticas”, como o sonho de bons salários ou o respeito à dignidade de cada um. Indigno é permitir que alguém seja ateu. Ou muçulmano, porque os do Islã lembram homens-bomba e mulheres-suicidas (pessoas dispostas a morrer para se tornarem mártires, ou de oferecer os próprios filhos em holocausto por uma causa radical).

É preciso ser grande, altruísta, olhar para os horizontes além da divisa do olhar, porque o mundo é muito maior (dizem eles). Olhem longe, sim. Porque olhar perto é profano e perigoso. Se olhar perto, você pode descobrir que quem lhe oferece uma ideologia saudável e libertária violou a liberdade e a dignidade de alguém, apoderou-se dos bens de outrem, locupletou-se de modo inconfessável e gerencia com eficiência uma gorda conta bancária num desses famosos paraísos fiscais...

A economia é globalizada, mas tem capital. Vale a ambigüidade – e a ubiqüidade também (gosto de trema, vou usá-lo até que me obriguem ao contrario). A capital do capital universal, quero dizer, globalizado, ganhou novo gestor,  simpático e negro. Negro? Aqui, seria crioulo, mulato, mestiço. Aqui, provavelmente não se faria referência à cor da pele. Ainda restam muitas ilhas de racismo, mas caminhamos a passos largos para a integração.

Mas eu dizia do reinício das aulas, e boa parte das escolas já cumpre a rotina que se estenderá até os primeiros dias de dezembro, com um recesso em julho. Mochilas cheias, colunas dorsais condenadas, ensino de qualidade sofrível e uma geração de estudantes que transporta toneladas e toneladas de livros para, daqui a poucos anos, nunca mais olhar para eles.

Certo: esses jovens passarão a odiar os livros, pois estes foram, para eles, como as pedras de antigamente para os prisioneiros que as quebravam enquanto se economizava dinamite. Professores da área intelectual devem ser maus profissionais, pois os de esportes conseguem fazer os meninos gostarem de bola. Ou não? Certo, Marcos Caiado, estou sofismando, sim. Mas quero conclamar os professores a ensinarem esses jovens a gostar de ler, e não apenas exigir que eles carreguem livros. Conhece alguém que se tornou concertista por carregar o piano?

Ando, sim, preocupado com o rumo que as coisas tomam. Há uma constante inversão de valores, ninguém quer edificar o homem de bem do futuro. A nova novela de Glória Peres mostra um casal que deseduca o filho,  acumplicia-se com ele para acobertar o vandalismo e os crimes cometidos pelo adolescente. Qualquer semelhança com o cabo da PM, pai do sujeito que matou Hígor à saída da boate, é mera coincidência.

Vamos lá, companheiros nascidos nos anos 30, 40 e 50 do século passado, vamos cumprir nossa parte. Como voluntários, conversemos com os jovens, seja em casa, nas ruas, nos bares e nas salas de aula. Talvez as nossas vidas tenham história bastante para mostrar-lhes que os tais de valores morais ainda valem a pena.

 

 

Luiz de Aquino é escritor e jornalista, membro da Academia Goiana de Letras.

E-mail: poetaluizdeaquino@gmail.com.

 

3 comentários:

Lílian Maial disse...

Muito boa, meu querido, com um mote oportuno e bem avaliado.
Parabéns!
beijos,
Maial

Mara Narciso disse...

Luiz, escrever que indígno é permitir que alguém seja ateu, ou muçulmano", foi extra-politicamente incorreto. Mas um direito seu nesse mundo onde impera a liberdade de expressão. Mas como impedir que alguém que não crê, continue sem acreditar?Será que um decreto faria desse descrente um crente? Acho que não.

Quanto a analogia do carregador de pedras, achei ótima.De fato levar livros não torna os meninos "gostadores" das letras. Tomei há pouco um banho de luz ao passar quatro horas em visita ao "Museu da Língua Portuguesa" e a "Pinacoteca". Estou em São Paulo, e isso é um senhor passeio.Levar os meninos, desde tenra idade, nesses lugares, não é certeza, mas é forte indício de que um dia gostarão de ler.

Luiz Delfino de Bittencourt Miranda disse...

Meu amigo poeta, seu brilhantismo impera na sagacidade de envolver e revolver a mente do leitor.
Não faz muito tempo uma prima que eu não via desde meados dos anos oitenta, pediu-me especial atenção, em meio a uma saudosa prosa familiar, para dizer que quando muito menina - devia ter seus seis ou sete anos, e eu meus doze ou treze -, ao chegar em minha casa, apoderou-se de uma pequena coleção de gibis que eu sempre guardei com muito carinho na mesma estante de livros de meu pai. Ao vê-la perscrutar as obras em quadrinhos, que entre os amiguinhos em comum serviam até como moeda de troca por material de igual serventia, chamei-a num canto - segundo seu recente relato - e disse-lhe que teria sempre por presente uma nova edição daquelas histórias em quadrinhos desde que a mesma se comprometesse a aprender a ler. Vale lembrar poeta Aquino, que meu pai era garção e morávamos em uma cidade muito humilde, que leva o nome do poeta Vicente de Carvalho, subdistrito de Guarujá, Baixada Santista. Muito humilde também era minha família; mais humilde ainda, para que você possa ter uma idéia, era esta minha prima cujo pai trabalhava como pintor civil, e nas horas vagas servia-se da ebriedade inspirado em Nelson Gonçalves, e a mãe, do lar e analfabeta - minha tia, irmã de minha mãe - formavam uma família de treze pessoas ou seja, esta minha prima chegou a ter mais dez irmãos.
Bem, voltemos às obras de Walt Disney. Ao ouvir que seria presenteada com um gibi a cada “pequena obra” que tivesse me decifrado alguma coisa, a mesma contou-me emocionada - e eu também já vertendo algumas lágrimas - que no mesmo dia lia com perfeição o que na capa estava escrito: " T I O P A T I N H A S " e outras coisas mais. E assim foi que a partir daquela data ela nunca mais deixou de ler e enriqueceu sua coleção de gibis e seu vocabulário. Assim alfabetizou-se, para bem mais tarde entrar na escola pois lá, na pequena Ilha de Santo Amaro, era grande a dificuldade de ir ao Grupo Escolar com a idade certa. Eu por exemplo, entrei aos nove anos.
Sabedor de sua sensibilidade, nobre conterrâneo de Cora Coralina, sei que comungará comigo a felicidade de conhecer este fato e aqui, após ler sua crônica, faço questão de registrar o apelo para todos nós que muito pode ser feito seguindo-se, sem muito compromisso, o exemplo do menino que sonhava em ser um cientista igual a Vital Brazil e ser um escritor como Martins Fontes

Luiz Delfino

sexta-feira, 6 de fevereiro de 2009