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quarta-feira, janeiro 14, 2009

Assassinato a esmo e sexo objetivo

Assassinato a esmo e sexo objetivo

Luiz de Aquino

 

Ando muito triste com Goiânia. Não com a cidade em si, mas com os rumos que toma a faixa que, em muito poucos anos, dirigirá nosso destino como comunidade. Refiro-me, é claro, a essa faixa que vai dos vinte aos trinta anos de idade, justamente a que contém os moços que se envolveram numa briga na Boate Santa Fé, na Avenida T-1, no Bueno, que resultou na morte do estudante Higor Bruno.

Sou dos maiores entusiastas desta cidade. Gosto de contar que ainda podemos viver com alegria e que as ocorrências de violência ainda não causaram, aqui, a paranóia que cerca algumas metrópoles brasileiras. Consciente, porém,  não me atrevo a repetir o que dizem algumas publicidades institucionais que qualificam a nossa capital como “ecologicamente correta”. Uma cidade ecologicamente correta não mata seus rios e córregos nem erradica belas árvores de flores, como se fez há poucas semanas na Avenida 85.

É triste constatarmos que as drogas proibidas e o álcool consentido estão causando a média de 1,9 assassinatos por dia na Grande Goiânia. Se computarem as mortes por conta da embriaguês ao volante, esse número passaria, certamente, da marca de duas mortes diárias.

No Jardim América, desde dezembro, está aberta uma grande loja, com fachada em apelos berrantes, que oferece artigos ligados às práticas sexuais, ou seja, um sexy-xópin. Nada demais, se a casa não estivesse bem em frente ao Colégio SESC Cidadania, ao lado de três outras lojas voltadas para a atividade estudantil (lanchonete, livraria e uniformes), bem como de um quiosque de lanches, desse que o costume goianiense chama de “pitidog” (coincidentemente, o comerciante de artigos pornôs é o mesmo do “pitidog”).

Voltando ao caso da boate, Gedeilson Rodrigues disparou vinte vezes, sem especificar seu alvo. Atingiu de raspão um dos rapazes e matou Higor. Gedeilson tem passagens anteriores pela polícia, inclusive por homicídio, mas, como ainda não foi sequer julgado pelos três crimes de que (ainda) é suspeito, está qualificado como “primário”e, assim, tem direito de responder em liberdade. Agora, tem mandado de prisão contra si. Espera-se que fique preso, porque ele dá evidências de que continuará matando.

Vislumbram-se aí distorções no processo de educação desse rapaz. Que cabeça de pai formaria um filho para ser um livre-atirador? Que tipo de pai se orgulharia de ter um filho indiciado por cometer crimes variados? Ora, estamos acumulando registros, aqui e nas demais unidades federativas, de maus policiais que matam, com intenção ou não. Mas será que um pai policial, bom ou mau policial, fica orgulhoso de ver seu filho cometer essas vilezas?

Atirar a esmo no decorrer de uma briga, arriscando-se a ferir e matar, caracteriza a intenção, ou seja, faz do autor, neste caso, um homicida doloso. Sabemos que não se criam filhos sem que eles tomem conhecimentos de sexo e violência, mas pais e educadores sabem como falar de violência e sexo sem incitar crianças e adolescente ao crime ou à concupiscência. Quem instala ou autoriza uma loja pornô diante de uma escola de crianças e adolescentes age com o mesmo grau de responsabilidade que o atirador sem pontaria. Ou com a mira voltada para um grupo previamente visado.

Pergunta-se, em todos os cantos da cidade e na mídia nacional, se as boates se organizam de modo a oferecer segurança aos seus clientes, e se as autoridades policiais também cuidam da prevenção com vistas a evitar fatos como a morte de Higor. Não tivemos tempo para entender a morte de Diogo Ranhel, atingido por uma bala disparada por um policial militar que (de novo) mirou no pneu... A gente se pergunta se as pistolas 380 da PM estão com seus canos desviados, mas eis que Gedeilson, portando provavelmente a arma da PM confiada ao seu pai, disparou a esmo e, também, acertou a nuca de Higor.

Estará a PM lenta ou tolerante? Ainda não temos notícias das investigações sobre a morte de Pedro Henrique (o PM mirou no pneu e acertou a nuca dele), e outro PM mira o pneu a atinge a nuca de Diogo. Agora, o filho do cabo da PM acerta a nuca do estudante...

E na Prefeitura de Goiânia? Quem liberou o alvará para a loja de objetos de luxúria em frente ao colégio? Que medidas as famílias, que pagam muito caro por educação, saúde e segurança, terão do poder público em seu favor, hem?

 



 

2 comentários:

Mara Narciso disse...

O despertar sexual precoce deve ser desmotivado. A possibilidade das crianças terem contato com esse material é alto, e de também serem vítimas dele, não é improvável. Há que se fazer uma melhor escolha de local, para não acontecerem lamentos depois. Boa lembrança Luiz.

Quanto a matança desordenada, desse mesmo mal nos queixamos na minha cidade, Montes Claros, de 350 mil habitantes. Tivemos mais de cem assassinatos em 2008. Somos a terceira cidade mais vilenta de Minas Gerais. Que feio!

Luiz Delfino disse...

É angustiante e aterrador. Na Goiania que assisti diversos mutirões "Iris Resende", como a construção das mil casas, nos idos dos anos 80, assiste-se também a barbárie no lugar das festas das juventudes; o extremo entre o sagrado e o profano unindo-se para a gênese do mal. Parabéns poeta, que consegues nos transmitir estas mensagens que se fazem envolver pela reflexão.