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sábado, janeiro 31, 2009




Carta ao tempo

Luiz de Aquino

 

Leitores amigos, já notaram como as pessoas se dividem pelo modo como olham as coisas e a vida? Sim, há os que vêem passado em tudo, enquanto outros enxergam o futuro até mesmo nos desenhos rupestres. Alguém, mais bem dotado que os comuns, disse que o fundamental é vivermos o presente, mas quase todos agem apenas em função do passado e (ou) do futuro; assim, deixam de se ocupar do presente, de viver o momento.

Conhecemos, ainda, muitas senhoras que, enviuvadas ainda nos verdes anos, enclausuraram-se em vestes escuras e sóbrias e escolheram envelhecer antes que lhe chegasse sequer a idade adulta em sua plenitude. Vejam aí, entre as amigas e parentes de suas mães e avós, e verão que não exagero. E mesmo entre os moços e adolescentes ainda vemos os que cobram de pais e mães viúvos uma castidade desumana.

Convenhamos: viver o presente nos dá mais chances de felicidade, e esta não é um ponto de chegada, mas uma viagem (mais coisas ditas por algum outro pensador, talvez anônimo; mas conheço bem uns dois ou três escribas famosos que não têm escrúpulos em se apoderar das falas alheias). Sofremos muito pelas dores do passado ou pela ansiedade ante o futuro. Enquanto isso, a vida passa, a fila anda e o dia amanhece outra vez, e outra, e outra...

Ao contrário dos que se vem nos jovens, olho-os e enxergo o futuro. Não quereria, para mim, a viagem de volta, pois sei que cometeria os mesmos erros, sofreria as mesmas dores e as angústias se repetiriam. O mesmo se dá em

 mim quando perambulo nas ruas de ontem, como as do centro de Goiânia, que aos poucos vai se tornando História. Aquelas ruas de comércio pouco e variado e moradias várias tornaram-se um bazar oriental, com as calçadas entupidas de produtos e transeuntes anônimos.

O centro, hoje, é ponto essencial de passeio para os que já atingiram os cinqüent’anos. Nada de criticar a mudança dos hábitos, mas de curtir saudade com a convicção de que, para os moços, as lembranças se formam agora. Na Rua 4, a poucos passos da Avenida Goiás, encontrei Martônio, velho amigo dos nossos tempos moços nas Ruas 96 e 97, quando até o quintal do Palácio das Esmeraldas parecia-nos vulnerável, especialmente em tempo de jabuticaba. Vinha de par com o pai, Antônio Pereira, a quem fiz uma cobrança sincera: “Siô Antônio, que desaforo! O senhor não vai envelhecer?”. Não, não vai... Ele prefere transformar as lembranças em escritos que, brevemente, vai virar livro.


Cinco minutos de prosa boa, saudade e esperanças renovadas. Dá-me vontade de falar ao tempo, escrevo, então, esta carta ao tempo... Ou melhor, um poema à mulher de amanhã, escrito num tempo que também já vai longe. Só que, de novo, faço o passado viajar ao futuro, num jogo de ir-e-vir como passos de dança. Algo assim:


Se eu voltar a viver nos teus sonhos

 

Se eu voltar a viver nos teus sonhos, 

é certo que chegarei sem pedir licença. 

Será um chegar na noite, 

sem silêncio e sem luar 

porque nada mais senão nós dois 

deve existir.


Será um sonho em que a dor 

há de valer 

na suprema intensidade 

do calor que brotar dos corações. 

E será um sonho 

que nos fará acordar suarentos, 

porque estaremos juntos 

antes que o galo anuncie a madrugada.


Se eu voltar a viver nos teus sonhos 

vou sentir a mudança no cheiro das manhãs, 

lembrando o tempo das flores 

nas mãos que me afagavam. 

Será o tempo de rever noites 

tão nossas 

e recordar teu cheiro em mim — 

o cheiro único 

da única mulher em minha cama.


(A mulher na minha cama, 

de cheiro exclusivo 

e carinhos só dela, 

não trazia o feitio 

das noites vazias: era a essência 

da minha carência 

e promete outra vez 

renascer 

quando eu voltar a viver nos teus sonhos).

 

Meus amigos, pai e filho, se vão, mas não nos despedimos. A tarde, sim, despediu-se no tempo, porque ela, a tarde, é única. A cada fagulha do sol ou cintilar de estrelas infinitas renovamos nossos passos, nossos olhares... Sinto que tudo virá outra vez, mas da mesma maneira como Heráclito definiu o rio e o homem.

Tudo se faz novo.

 

 

Luiz de Aquino é jornalista e escritor, membro da Academia Goiana de Letras e escreve aos domingos neste espaço. E-mail: poetaluizdeaquino@gmail.com. Blog: http://penapoesiaporluizdeaquino.blogspot.com.  

12 comentários:

Leda Selma de Alencar disse...

Luiz, no capricho mesmo: imagens doces, sutis, tocantes; lembranças ziguevagueando ora atônitas, ora serenas, por clarões e sombras (hum... pode ser o verso de um poema, não?!), enfim, belos jogos de palavras. ADOREI!!! Só agora, quase uma da madrugada, abri minha caixa e valeu só por sua crônica. Beijão. Lêda

Marluzis disse...

Ontem foi dia da saudade (estava escrito aqui na minha folhinha). Até parece que precisa de dia marcado para comemorá-la. Comemorar? Não combina.
Nela você passeou, deliciosamente, no tempo, sem tempo e espaço “...num jogo de ir-e-vir como passos de dança.”
E no ciclo da vida, que tem o seu próprio tempo, tudo está sempre se renovando, assim como as leituras que aqui encontro.
Adoro te ler. Deixo aqui meu carinho.

bethluz disse...

Poeta
Mais uam vez, maravilhoso e rendo-me beleza e pureza das suas palavras .....

Heloísa Helena disse...

Luiz de Aquino, que poema bonito e que texto saudoso.
O tempo esquisito tá te deixando triste?
Abraço, Heloisa.

Placidina Lemes de Siqueira disse...

Amigo, coloquei este poema na cabeceira da cama do João (UTI do H.S.Salvador).

Placidina

(Esclarecendo: João, marido da poetisa e minha querida amiga Placidina, encontra-se sob cuidados, como se depreende. O fato de ela associar meu poema com seu momento de tensão e angústia mostra-nos que uma vida só se constrói mesmo com amor. L.deA.(

Márcia disse...

Belíssimo!!Amo este jeito doce com as palavras, que só você tem!
Parabéns poeta!

Anônimo disse...

Boa tarde Poeta!...Lindas, doces e carinhosas palavras!...Um 'deleite'ler tudo que vç escreve.Ireci Maria.

Ireci Maria disse...

Poeta!...Seu blog está cada dia mais lindo!... Adorei tudo que li. Essa é nova ou de algum de seus livros que ainda não li? ( Se eu voltar a viver nos teus sonhos.)

Parabéns!, meu poeta preferido.

Ireci Maria.

Romário Nogueira disse...

Poeta
Geralmente é mesmo assim
Brota dentro da gente esse calor
que nos faz diferente
sendo os mesmos.
Comigo e minha única
é assim.
Um dia, eu sei
Seremos eu e ela, únicos.
Seu Poema
“Se eu voltar a viver nos teus sonhos”
revelou em mim a poesia que eu sinto.

Parabéns
Sou seu fã.

Luiz Delfino de Bittencourt Miranda disse...

Homem de Deus, perdi o sono. Não faz muito tempo eu perdia o sono quando a filha adoecia - teve até grave enfermidade e graças a Deus tratada e recuperada no Hospital de Clínicas de São Paulo no inicio dos anos 90 - e agora perco quando ela sai para o que chamam agora de "balada". Eu quero mesmo é que ela viva a plenitude da juventude como você bem advoga, com maestria peculiar, diga-se de passagem, enquanto eu consigo ouvir os sons da natureza biológica que cercam a minha morada. E é nesta madrugada onde me vejo preocupado com a chegada da filha, que me encontro - e encanto - com palavras que não somente me servem de alento mas de fraternal felicidade ao tomar conhecimento que as mesmas servem até de oração à poeta Placidina, sua amiga à quem também uno-me em oração.

Abraços

Luiz Delfino

Maria disse...

Meus colegas psicólogos(as),precisam ler mais poesia).Assim, com certeza poderam ajudar seus pacientes a viveciarem melhor o momento presente. Farei a minha parte.Abraços

Adélia Maria disse...

Lindo poema!!! Plantão com Luiz de Aquino é o máximo! ;))