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sexta-feira, janeiro 23, 2009

Será o fim dos males?

Será o fim dos males?

 

Luiz de Aquino

 

Ainda não me acostumei… Todas as vezes que ouço alguém dizer “a era Obama”, ocorre-me que está surgindo uma nova companhia de aviação: Aerobama. Não se fala em outra coisa... Ou melhor, fala-se muito e de tudo, desde que tudo seja em torno da posse, que os americanos chamam de “inauguration”, e um “cientista político” obviamente brasileiro (paulistano, para ser bastante preciso, com aquele sotaque de paulistano-acadêmico em momento de entrevista a uma emissora de rádio) usou como referência para demonstrar o nosso “atraso medieval”. Segundo esse senhor, cujo nome felizmente não guardei, isso de “tomar posse” é retrógrado, leva o sujeito a pensar que é dono do cargo, etc...

Ah, meudeusdocéu! A gente tem de ouvir tanta baboseira quando quem fala se escuda com um título acadêmico! Será que fomos nós, brasileiros, que “inauguramos” o G. W. Bush? Porque ele, sim, levou os EUA (e um leque de nações que lhe puxaram o saco) a cometer a guerra do Iraque. A maior democracia do mundo, que é também, do mundo, a maior economia e a maior potência bélica, a nação mais organizada e outros epítetos, foi ela quem pôs no poder, há oito anos, o sujeito que não venceu nas urnas. Depois, o povo, feliz por vencer no Iraque (quer dizer, por matar civis indefesos e militares mal equipados), decidiu eleger o homem. Ou seja, é como se ele fosse nomeado em comissão para um cargo brasileiro e, depois, só depois, passasse em concurso.

Seguindo uma linha de raciocínio que sempre ouço de policiais e outros profissionais da área penal, sempre me pergunto a quem interessaria, diretamente, aquele famoso atentado de 11 de setembro de 2001. Pergunto a mim, e tenho a minha resposta; quando pergunto a outras pessoas, a gente acaba concluindo que só interessava (e bem-valeu) a George W. Bush. Isso é que é uma coincidência digna do tal de primeiro-mundo! Então? Parece-me que o primeiro mundo nem é lá tão adiantado assim... Afinal, só agora, em seu quadragésimo quarto presidente, puseram um negro no Poder, coisa que já acontece na África há milênios (juro! Ouvi isso num boteco, sim...).

Voltando para cá, para o meu quintal, ou minha doce e encantada província (sem pejo, meus queridos, adoro a palavra!), entristece-me constatar que ainda não concluíram o decantado viaduto, com sua trincheira e a praça de conversão ao nível da rua. Comparo-o com a obra da Praça do Ratinho e vejo, sem dificuldades, que aquela se deu a contento, atende bem, soluciona o problema dos congestionamentos e foi inaugurada após concluída; a do Chafariz, não. Placas caem, as estruturas metálicas que formam aquele V invertido foram malcalculados e terminaram com uma ponta forçada, as vias de conversão registram congestionamentos graves (talvez se resolva com nova temporização dos sinais luminosos), o piso de asfalto não ficou bom (há vários pontos de remendos e o perfil está maldelineado). Concluo que faltou Mauro Miranda. A construtora, a exemplo da outra (a que fez a obra do Ratinho), tem história.

Mas, como diz a canção, “não tem nada, tá tudo azul na América do Sul” e nos cones questionáveis. Uma igreja enorme, cujos dirigentes só querem dos fiéis as orações e o dízimo, fez remendos a que chamou de reforma, com fiscalização caolha pela Prefeitura de São Paulo; o resultado foi o que todos sabemos. Mas Obama foi emposs... desculpem-me, foi inaugurado. E com sua “inauguração”, deram-se por findos os ataques à Faixa de Gaza, e os palestinos já contam muitas centenas de novos mártires, um terço deles (ou mais que isso), crianças. Não tem nada não, Obama é o homem mais poderoso do mundo. Nossos problemas se acabaram. Nada mais de dengue nem AIDS, nada mais de tráfico (de influência ou de drogas), nada mais de CD e DVD pirata, nada de se contrabandear armas e cigarros. Obama...

Obama, Obama... Obama nas alturas e paz na Terra aos homens sem lastro (nem lustro)!

 

 

 

Luiz de Aquino é escritor e jornalista, membro da Academia Goiana de Letras. E-mail: poetaluizdeaquino@gmail.com

7 comentários:

neuse disse...

Acho que Obama trouxe esperança, luz... Principalmente para os pobres... Mas acho que não mudará assim tão rápido como acham... Não sabemos se ele é um Presidente, criado em laboratório... Só o tempo pra mostrar a verdadeira face do salvador do mundo.

Mara Narciso disse...

A crise pode ser real e imaginária. A pior crise é justo e irreal. O espírito desce e faz o seu estrago. Assim vejo que seu oposto pode também verdadeiro: esperança que se concretizará. Excessos? Exageros? Sonhos infantilizados? Certamente um pouco de tudo sim. Vamos aguardar.

No dia da posse, a cidade de Montes Claros, arrasada pelas chuvas e com o asfalto precisando ser todo trocado, com milhões de buracos por todos os lados, viu um buraco do centro prestar uma homenagem ao novo presidente: BURACO OBAMA. E essa graça foi parar no Kibeloko.

Anônimo disse...

Boa Noite,poeta!...Belo texto. "Obama nas alturas" e, os problemas continuam lá nos E.U.A , aqui no Brasil e, em todo o mundo.O mundo precisa de um ídolo para ter esperanças!...Então, nasceu Obama, O salvador do mundo.( rsrs)Ireci Maria.

Jane Botti disse...

Primoroso e cheio de humor o texto sobre a era Obama, Luiz. Vc, pergunta: "Será o fim dos males?" e eu respondo: Com certeza é o fim dos males da familia Obama! Beijão

Luiz Delfino de Bittencout Miranda disse...

Poeta, quisera pudessemos ser poetas também em nossos conceitos concertentes ao mundo em
que vivemos; podemos até, mas seríamos apaticos com a realidade -o que pode vir a ser um grande erro para um poeta. Minha esperança é que Obama arrume sua casa sem jogar pedras no telhado alheio e que sirva de exmplo para alguns presidentes latinos que estudar, ler jornais e andar em boas companhias da mais seguranças ao povo que pensam governar.

Abração

Luiz Delfino

Maria Lindgren disse...

ótimo texto. Vamos ver no que dá esta comemoração toda de nosso mandões no mundo.
Maria Lindgren

Maria Helena Chein disse...

Luiz, acabo de ler seus quatro últimos textos e pude mais uma vez observar que você está sempre preocupado com as questões da nossa cidade e de seus vultos importantes. Atento, fica "de olho" nos equívocos, nas falhas, nos erros dos corruptos, como também aplaude as iniciativas necessárias, as idéias e realizações positivas. Sua contemporaneidade, alicerçada pelos conhecimentos, torna suas crônicas leitura obrigatória.
Um grande abraço.
Maria Helena