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sexta-feira, junho 12, 2009

Viagem à saudade




Viagem à saudade





Luiz de Aquino








A poesia se veste da Língua, dá a mão ao tempo e sai por aí, com a justa vontade de ser feliz. E aí, ou então, a poesia se interioriza de filosofia, lê nos muros retalhos de arte, censura a sujeira dos predadores, empolga-se com quadris das fêmeas (nem todas, admito) e lambe o chão pelos pés bem-tratados destes tempos de influência de hábitos indianos em cores da novela de Glória Peres.


Viagem, distância, ares e chão, asfalto e trilhos. Viagem ao ontem de quatro, cinco décadas. As ruas dos ônibus, nos subúrbios do Rio, continuam as mesmas, algumas em paralelepípedos carroçáveis, o baú com rodas parece desintegrar-se, feito um Airbus 330 de bandeira francesa. Mas o ônibus não voa e ostenta placas municipais. Uma hora de sacolejos e desembarcamos em Marechal Hermes, “do outro lado”, ou seja, além da linha do trem. Subimos os degraus, quase 50, da velha estação em estilo inglês. Faço fotos, muitas, descemos no lado oposto, o “lado de cá”, o lado onde morávamos, anos 50 e 60 do século que nos viu nascer.





Ah, me esquecia! Para essa andança de saudade e poesia, chamei meu primo Leonardo, o Dáguila. Léo chegou há dois meses, depois de viver vinte anos em terras do Tio-Sam e Osama. Diz a mim que se sentiu triste, nos primeiros dias no Rio, ao ver que “a minha gente anda triste, só olha pro chão”, mas se deu conta de que é indispensável se olhar o chão – há que se evitar pisar cocô de cachorro. Pouco depois, queixa-se da “ turbulência de superfície”.




Descemos do ônibus e quase batemos de frente com um tipo que pensávamos extinto – um amolador de facas, com sua roda de esmeril, a correia, o pedal e o som típico da pedra a comer metal. Em frente, junto à estação, um miniônibus, ou van, ostenta o itinerário “Marechal Hermes – Madureira”. Mudou o veículo: antes, eram velhos carros com uma linha intermediária de bancos escamoteáveis, apelidados por “pererecas”.


Passeamos as ruas, revemos nossa antiga casa na Rua João Vicente, fotografo a placa 1495. Circundamos quarteirões, fotografo a casa da Tia Celina (Rua Regente Lima e Silva, 131), alcançamos a Avenida General Osvaldo Cordeiro de Farias, vejo a casa onde morava Luperce Miranda.

A Escola Evangelina, da nossa infância, a Rua Alexandre Gasparoni, a transversal onde reina, solene, o velho Clube Marã, a Rua Brigadeiro Delamare, a casa do primo Humberto (antes, dos tios Luzia e Rolemberg). Tarde de longa e boa prosa, o passado fazendo-se presente, como atestou Quintana.






Almoçamos num restaurante onde antes era padaria. Sentamo-nos “à goiana”, isto é, de frente para a rua, vendo os passantes, analisando tipos. Silhuetas femininas de expressivos bustos e magnânimas ancas (como são bundudas as cariocas!), mas há também as descuidadas, as que ostentam minissaias, apesar das varizes e celulites.




Dispensamos o ônibus, escolhemos o trem, o velho e bom trem da Central (agora, da Super Via). Viagem rápida, um alto falante a dizer os nomes das estações, atiçando a memória. Léo desembarca no Maracanã, junto à antiga estação-primeira de Mangueira, toma o rumo da Vila Isabel. Viajo alguns minutos mais, salto na estação de referência, a Central. E atiço ainda mais a saudade nas calçadas do antigo Ministério da Guerra, do Itamarati, do Colégio Pedro II...


E volto ao hoje.


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Luiz de Aquino é escritor e jornalista, membro da Academia Goiana de Letras e escreve aos domingos neste espaço. E-mail:
poetaluizdeaquino@gmail.com



6 comentários:

Mara Narciso disse...

Voltar ao passado sem lamentos, é uma viagem de saudade boa, como parece ter sido esse passeio. A mim faz mal quando retorno ao lugar aonde fui feliz um dia. A nostalgia acaba por me derrubar, e no meu caso, melhor passar bem longe.

Poeta disse...

DIA DOS NAMORADOS (Soneto)

Dia doze de junho se destaca
Por ter sido um dos mais comemorados
Incluído nas leis do romantismo
Em vigência aos casais apaixonados
Registrado no livro do amor
Com o título: O DIA DOS NAMORADOS!

Basta um simples jantar a luz de velas
Que o amor nasce da simplicidade
Não é pelo tamanho do presente
Seu valor nem a sua qualidade
Um dos gestos mais lindos no amor
É dizer: “eu te amo de verdade”

Quem não tem namorado ou namorada
E está muito difícil conquistar
De acordo com as superstições
Santo Antônio morreu sem se casar
Mas se apegue com ele, faça preces
Que ele ajuda a você desencalhar

Heleno Alexandre

Sônia Marise Teixeira disse...

Oi! Li. Muito legal. Solta, saudosa...uma beleza voltar ao antes quando se tem boas lembranças.

JEFFERSON REGO disse...

Gostei. Bem agradável de se ler. É um texto que me remete a uma questão: será que é do tempo passado que temos saudades, ou será que o que sentimos é saudade da gente mesmo no tempo em que não sentíámos saudade de nada? abraço

Jefferson
jrporto13@gmail.com

Anônimo disse...

Gostei demais...É sempre bom recordar o que nos deu alegria!
beijos

LUCI

Paulo Pedro Pinto disse...

Amigo Poeta, quantas emoções!!! Saiba você, meu companheiro e contamprorâneo das delícias deixadas no passado, em nosso querido Marechal, que , não muito raro quando estou no Rio, realizo proezas desse tipo: já saí de MH de trem até a central; caminhava pela famosas ruas do Rio até a praça XV; pegava uma lancha até Paquetá: tomava uma cerveja bem gelada e voltava no próximo barco. Já peguei, também, o 378 soltei no ponto final e ia à pe até a estação dos bonde de Santa Tereza onde eu embarcava a fim de percorrer todos os trilhos possíveis. Amigo pirenopolino(?), o melhor passeio que dou, onde realmente volto ao passado é quando estou na casa da minha irmã Rosani e saio para fazer a minha caminhada diária. Começo pela Marina, Xavier Curado, Retono, pela frei Sampaio, volto pela General Claudio... eassim vou até a João Vicente, Divisória e Marina, onde minha irmã mora. Um grande abraço. Parabéns pela crÕnica. Paulo